quarta-feira, 28 de abril de 2010

Morre Lentamente.


...

quem não viaja, quem não lê, 


quem não ouve música, 

quem não encontra graça em si mesmo. 

(...)

quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca,

não se arrisca a vestir uma nova cor 
ou não conversa com quem não conhece. 
(...)
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, 
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, 
quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos. 
(...)
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante... 
(...)
quem abandona um projecto antes de o iniciar, 
não pergunta sobre um assunto que desconhece 
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe. 

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar. 
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade



Pablo Neruda

[ Depois de uma reunião de acompanhamento de Projecto, tomei conhecimento de que os trabalhos de meio de semestre escolhidos pelos alunos de Economia e Gestão foram maioritariamente sobre ética.
É razão para perguntar 'Porquê?'... Por que razão os alunos de Economia e Gestão da Universidade Católica optaram pela realização de um trabalho relacionado com ética, quando tinham, também, como opção Macroeconomia, uma área que, à partida, lhes é mais confortável.
O que me leva a outra pergunta... Por que razão a minha escolha seguiu a da maioria?

De facto, Macroeconomia interessa-me mais do que Ética.
De facto, a minha primeira inclinação foi fazer o trabalho de Macro.
Mas mesmo assim, fiz o trabalho de Ética e não o de Macro.

E então porquê?

A verdade é que sabia que tinha que estar plenamente à vontade com todos os conceitos macroeconómicos para realizar um bom trabalho. E não estava...
Como tal, escolhi o caminho mais fácil. Não arrisquei.

Tivesse eu optado por Macro e, por esta altura, estaria preparada para o próximo mini-teste.
Tivesse eu feito um esforço adicional, num dado momento, e essa decisão só me traria vantagens, a médio prazo.

Não o fiz e agora estou atrasada para o estudo da disciplina...
Que fique a aprendizagem para as próximas vezes.]

Invictus.




Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.


In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance,
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley

[ Vi 'Invictus' este fim-de-semana. O filme relembrou-me o poema de Henley...]

Don't Vote !

[Vídeo filmado pela altura das presidenciais nos E.U.A., quando Obama estava na corrida a Presidente.]


Desde muito nova que convivo com um irmão que é um aficionado por política…  Durante anos não percebi como é que isso era possível… Viver a política como quem vive um Clube?! Achava completamente impraticável viver fervorosamente debates de um grupo de pessoas que pareciam defender o que melhor lhes convinha e não o que convinha ao país. Pessoas corruptas, que só estavam na política por interesse! Esta era a minha  visão da política… Quer dizer, eu nunca tinha ouvido um debate mas era o que eu sabia do senso comum. Que a política é aborrecidíssima e, que político é sinónimo de ladrão.
E na verdade este meu desinteresse era desculpado pelo maior parte das pessoas, seguindo a teoria de que a política não é suficientemente apelativa para os jovens.
Mas depois vi um filme… É um triste lapso não poder citar integralmente aquilo que queria, mas foi algo como: “Ah tu não gostas de política?! Como é que isso é possível? Não te preocupas com a Saúde, a Educação, a Economia do País…? Não te interessa que o teu país apoie ou não uma guerra? Que a idade das reformas aumente, que a população envelheça e não haja população activa suficiente para garantir as suas próprias reformas no futuro? Realmente se não te importares, então a política não é para ti…”
Percebi que me importava... Foi então que comecei a pensar que realmente a política tinha um papel importantíssimo na sociedade, que eu não podia reclamar um direito ou protestar contra o não-cumprimento de uma determinada promessa política se eu não tivesse votado.
Por esta altura decidi que tinha que ser eu a criar a minha própria imagem da política. Tinha que lhe dar uma oportunidade e não podia olhá-la com um pré-conceito, o pré-conceito de que tudo na política é mau... Apercebi-me, com o tempo, e depois de ter criado o meu conceito de Esquerda e Direita, que a política era bonita e que o problema eram alguns políticos, ainda que não todos e, gosto de pensar, tão pouco a maioria.
Comecei a perceber que o afastamento dos jovens da política era resultado da não informação, e que esta não informação era culpa deles como tinha sido minha! Não podemos culpar os governos porque os debates são enfadonhos ou porque não fazem malabarismo na Assembleia… Lá, debate-se a vida real e a vida real não é feita, apenas, de grandes festas… Cabe aos jovens informarem-se, cabe aos jovens interessarem-se pelo País e pelo seu futuro, consciencializarem-se de que é inevitável que os próximos políticos sejam eles... A não ser que considerem a anarquia praticável! Estes jovens têm que crescer e deixar de ser encarados como crianças resmungonas que se queixam que a política está pouco direccionada para eles ou que é muito aborrecida! Crescer e serem eles a criar as iniciativas e a procurarem fazer política, deixarem o papel do pessimista que espera sentado ver as coisas acontecerem, enquanto atira a pedra e esconde a mão! 
Por favor, parem de culpabilizar os outros de algo de que só vocês têm culpa. Procurem, investiguem, informem-se, ouçam, comentem e verão que o bichinho nasce mais cedo ou mais tarde… Não estou a dizer que todos seremos deputados ou ministros ou vereadores, mas todos podemos ser interessados e informados! Além de que, tenho que admitir, faz-nos sentir realmente grandes podermos comentar um debate político e podermos comentar a legislação e as ideologias de um partido.
Eu gosto de afirmar que, agora, tenho uma cor política, que tenho uma ideologia e que, por isso, vivo o meu país mais intensamente… 
Ao interessarem-se, repararão que esta Ciência dos Gregos está presente em mais momentos e decisões da vossa vida do que possam alguma vez imaginar… Repararão que,  quando defendem a privatização das empresas, são de Direita e quando são a favor do casamento dos Homossexuais são de esquerda, que quando são contra as cotas das mulheres na assembleia  são de direita e que quando são a favor do aborto são de esquerda. Todas as vossas decisões têm uma tonalidade política, quer queiram quer não! Não podem fugir à política, portanto juntem-se a ela e construam com ela uma relação de amizade... 
Vale a pena…
Por isso que me apraz dizer que, hoje, já não sou um destes jovens sem cor! Hoje, tenho uma cor política!

Reli.

As pessoas crescidas gostam de números. Quando lhes falam de um amigo novo, nunca perguntam nada de essencial. Nunca perguntam: "Como é a voz dele? A que é que ele gosta mais de brincar? Faz colecção de borboletas?" Em vez disso, perguntam: "Que idade tem? Quantos irmãos tem? Quanto é que ele pesa? Quanto ganha o pai dele?" Só então julgam ficar a saber quem é o vosso amigo. Se contarem às pessoas crescidas: "Hoje vi uma casa muito bonita de tijolos cor-de-rosa com gerânios nas janelas e pombas no telhado...", as pessoas crescidas não conseguem imaginá-la. Precisam de lhes dizer: Hoje vi uma casa que custou 100 mil contos". Então já são capazes de a admirar: "Mas que linda casa!"


Embora os escritos permaneçam, a sua interpretação varia...

Diferentes pessoas, com diferentes origens, com diferentes contextos sociais, em diferentes fases da vida podem ter diferentes interpretações de um mesmo livro. Isto é óbvio....

O que não é tão óbvio é que a mesma pessoa possa ter diferentes interpretações de um mesmo livro.

Esta é a minha relação com o "Principezinho" de Antoine de Saint-Exupéry...
Li o livro várias vezes em diferentes fases da minha vida.
Quando não me apetecia ler...
Quando me apetecia ler...
Quando não tinha nada para fazer...
E quando não tinha tempo para não fazer nada...
Quando fui criança,
pré-adolescente,
adolescente,
jovem,
e agora...

Em todas estas vezes adorei o livro e em todas estas vezes descobri alguma coisa...
Sobre o livro... Sobre mim...  Sobre o mundo...

Como criança, adorei a história de um menino com muitos sonhos, que viajava pelo mundo.
Como pré-adolescente, identifiquei-me com o menino incompreendido. Embora os nossos problemas não fossem os mesmos, era-o o estado de espírito.
E agora, partilhei com o narrador a obssessão das pessoas crescidas com diversas inutilidades, futilidades. Eu, que sou quase uma pessoa crescida apercebi-me que me podia tornar uma delas.

Esta é, para mim, a magia do Principezinho... A capacidade de se reinventar.
Não conheço muitos livros assim. Não conheço muitos livros tão simples, com a capacidade de transmitir tantas e tão complexas mensagens.

Obrigada Antoine de Saint-Exupèry...

As Intermitências da Morte.


'O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher.'



José Saramago é um escritor mediático.

Ateu assumido, defensor acérrimo de ideias da extrema esquerda, a sua carreira literária está marcada por polémicas.

Viu a proposta para prémio de um livro seu vetada por Sousa Lara, Ministro da Cultura de então. Pelo mesmo livro ganhou o Prémio Nobel da Literatura, sendo que é o único escritor português a ter conseguido tal feito.

Exilado em Espanha, é admirado por uns, detestado por outros, não sendo indiferente a nenhuns.

Com uma personalidade peculiar, também a obra de Saramago tem o seu quê de peculiaridade.

Sempre num tom satírico, o autor trata temas como o Estado, a religião, o poder... a morte. Este foi o primeiro livro de Saramago que li. Iniciei-o a medo. O que ouvira de Saramago não tornava a sua escrita muito apelativa. "Impossível", "intragável", "ilegível" são algumas das características que vi associarem ao autor. As minhas expectativas não eram muitas, portanto dizer que Saramago as superou não é suficiente. Já referir-me ao autor como um dos meus preferidos é um reconhecimento que se aproxima mais do impacto que Saramago teve em mim. 

Confesso que decidi ler o livro, para conhecer o único vencedor do Nobel de Literatura português ... Porque ficava bem dizer que conhecia a sua obra e porque queria ser capaz de entrar numa discussão subordinada ao tema: “Achas que Saramago foi um justo vencedor?”. "Intermitências da Morte" fala de morte, mas não faz a abordagem comum e melancólica a que estamos habituados.

A escrita do autor é, na verdade, muito estimulante. Utilizando uma expressão popular e pedindo desculpas a Orwell por ignorar a sua origem, rio-me a “bandeiras despregadas” com José Saramago. 

Goso de Saramago porque este não tenta parecer um intelectual, utilizando o maior número de palavras com mais de seis letras numa frase. Pelo contrário, utiliza uma linguagem muito simples, carregada de ironia e sarcasmo, enquanto “vai fazendo” a sua crítica à sociedade.

Miguel Esteves Cardoso.

[Normalmente, não costumo adicionar textos ao meu blog sem acrescentar uma reflexão acerca dos mesmos. Mas vou fazê-lo agora. Abaixo, transcrevo uma crónica de Miguel Esteves Cardoso, um dos escritores abordados no debate sobre estilística e jargão. Decidi fazê-lo, pois penso que a crónica fala pelo autor. E melhor do que comentar o estilo de daquele que é considerado por muitos o pioneiro de uma corrente de novos cronistas em Portugal, é analisá-lo e tirar as suas próprias conclusões.]

Primeiro, as verdades.
O Norte é mais Português que Portugal.
As minhotas são as raparigas mais bonitas do País.
O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela.
As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.
Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se brancoao olhar. Até o granito das casas.

Mais verdades.
No Norte a comida é melhor.
O vinho é melhor.
O serviço é melhor.
Os preços são mais baixos.Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia.

Estas são as verdades do Norte de Portugal.

Mas há uma verdade maior.
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.
Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país.
Não haja enganos.
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.
Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.
Mas o Norte é onde Portugal começa.
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.
Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.
Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa.
Mais ou menos peninsular, ou insular.

É esta a verdade.
Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade.
O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à
parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa.
Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo.
As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.
O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.
O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho.
Tem esse defeito e essa verdade.
Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino.
O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.
As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança.
Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade.
Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os
olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.
São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.
As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.
Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.
Só descomposturas, e mimos, e carinhos.

O Norte é a nossa verdade.
Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.
Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte".

Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.
No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita. O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho
ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.
O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos
outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?

Estilística e Jargão.


Quando é que a forma como escrevemos deixa de ser uma marca estilística e se torna um ciclo de redundâncias e palavras vazias? Artefactos da linguagem que utilizamos para 'embelezar' o texto, mas que têm o efeito contrário, tornando-o confuso e impossível de compreender ?

Esta foi, na minha opinião, a pergunta que tentámos responder, na última lecture, subordinada ao tema "Estilística e Jargão"...

É certo que conseguimos identificar uma crónica de Miguel Esteves Cardoso através das palavras simples, as frases curtas e o tom irónico.
É certo que quando ouvimos alguém dizer "Ah! E tal!" ou "O que tu queres sei eu, pah!", lembramo-nos imediatamente da forma como Ricardo Araújo Pereira o diz.
E é certo que quando lemos uma frase que é afinal um parágrafo, que por sua vez ocupa uma página inteira, cuja única pontuação são pontos e vírgulas, sabemos que estamos a ler Saramago.
(Pelo menos é certo para quem conhece os três autores.)

Sim, muitas vezes conseguimos identificar grandes escritores através de uma frase, de expressões características, do tom, da pontuação do texto.
E sim, são estas particularidades que tornam um escritor igual a si mesmo. Mas até encontrarmos o noss estilo, sugiro que procuremos o meio-termo que Aristóteles propõe que encontremos na vida.

Seguindo a linha orientadora de Orwell, proponho que evitemos palavras vagas, redundâncias, estrangeirismos, vocabulário pretencioso... Estes originam um discurso pouco claro, impreciso e confuso, que provoca erros de comunicação e os erros de comunicação podem sair caros.

Se não estamos a escrever um diário,
Se não estamos a escrever um conto, ou uma novela ou um policial,
Se não estamos a escrever por nós ou para nós,

Então, quando escrevemos, e até quando falamos, devemos ter a preocupação de adequar a nossa mensagem ao contexto.
Devemos ter em conta quem lê,
por quem escrevemos (se a título individual ou colectivo), 
qual a mensagem que queremos transmitir 

e, só depois, pensar em incluir o nosso estilo no texto.